O uso da borra do café no controle do Aedes é um subproduto de vários anos de trabalho sobre o efeito da cafeína, realizados por meu grupo de pesquisas. Em nosso laboratório, os efeitos biológicos dessa substância foram primeiro testados em Drosophila (mosquinha que sobrevoa frutas maduras, em nossas casas e que tem sido um elemento-chave para o desenvolvimento da Genética). Desses estudos resultaram várias publicações, algumas no exterior, cujas citações bibliográficas encontram-se ao final deste texto. Os resultados obtidos nesses estudos sugeriram que a cafeína poderia ser um auxiliar no controle de insetos e assim foi decidido testá-la em Aedes. E, da mesma forma, sugeriram também o uso da borra do café, por seu conteúdo de cafeína e por sua disponibilidade para uso da população. Assim, quando propus o projeto envolvendo o uso das duas substâncias para dissertação de mestrado de Alessandra Theodoro Laranja, minha orientada no Curso de Pós-Graduação em Genética desta Instituição, já havia um embasamento para o trabalho. O desenvolvimento do projeto, no laboratório, confirmou as expectativas, mostrando que ambas as substâncias matam as larvas do Aedes, impedindo, portanto, que se tornem adultos.
Após os experimentos em laboratório, foram realizados testes em jardim, os quais confirmaram os resultados quanto ao bloqueio do desenvolvimento do Aedes nas fases de larva. A notícia se espalhou e começaram a nos pedir a "receita" de uso da borra de café. Escrevemos, então, um artigo, que foi publicado com alguns cortes, no jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto, no dia 06 de dezembro de 2001.
Reiteramos que o uso da borra deve ser feito na dose recomendada, porque nenhum remédio faz efeito abaixo da dosagem certa. No presente caso, não queremos servir cafezinho para o Aedes, queremos intoxicá-lo. Como nós ainda não sabemos quanto tempo dura o efeito da borra (estamos pesquisando isso), recomendamos que se coloque borra nova uma vez por semana. Lembremos porém, que, sempre que possível, o criadouro do Aedes deve ser eliminado. Por exemplo, para a dona de casa que já tem tantas ocupações, se ela puder eliminar o prato do vaso terá uma coisa a menos com que se preocupar, não é?
Como
muitas pessoas têm pedido dados científicos do trabalho, estamos colocando neste site o Resumo do mesmo, que foi apresentado no 47º Congresso Nacional de Genética, realizado em Águas de Lindóia, SP, de 2 a 5 de outubro de 2001. O trabalho na íntegra foi enviado para publicação em revista especializada. Está sendo também incluído o artigo a que nos referimos, com informações sobre o uso da borra. E, finalmente, a citação dos trabalhos anteriores realizados neste laboratório, com o uso da cafeína e do Aedes.
Dra. Hermione E. M. C. Bicudo - Coordenadora do Laboratório de Vetores do IBILCE - UNESP - São José do Rio Preto

O USO DA CAFEÍNA E DA BORRA DO CAFÉ NO CONTROLE DE Aedes aegypti. Laranja, A. T. e Bicudo H. E. M. C. Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas – UNESP. e-mail: alessa20@hotmail.com; bicudo@bio.ibilce.unesp.br

RESUMO:
Aedes aegypti é o mosquito transmissor da dengue, dengue hemorrágica e febre amarela, cuja incidência no País tem sofrido grande aumento nos últimos anos. Assim, é relevante o estudo de suas características biológicas, bem como de suas respostas a alterações do ambiente. O conjunto desses conhecimentos pode contribuir para que surjam novas formas de controle desse organismo, hoje, basicamente realizado pelo uso de inseticidas. Esse método de controle é preocupante porque, por um lado, sabe-se que os inseticidas são prejudiciais para a vida e o meio ambiente devido à sua elevada toxicidade e por outro, sabe-se que os organismos desenvolvem resistência a esses compostos, o que, com o tempo, pode tornar inócua a sua ação. No presente trabalho foram utilizadas a cafeína e a borra do café para estudos dos efeitos causados sobre parâmetros biológicos de Ae. aegypti, incluindo o desenvolvimento, a mortalidade e a longevidade. Ambas as substâncias afetaram essas características. A cafeína mostrou efeito dose-dependente no bloqueio do desenvolvimento, isto é, quanto maior a concentração da cafeína no meio, mais precocemente esse bloqueio se manifestou. Desse modo, na cafeína a 2000 µg/mL o bloqueio ocorreu em L1, na cafeína a 1000 em L2, a 500 em L3 e a 200, predominantemente, em L4. A mortalidade nas diferentes fases foi acentuada nos meios tratados com essa substância. A longevidade dos adultos também foi afetada nos meios tratados. Resultados semelhantes foram obtidos com o uso da borra do café, nas concentrações de 0,05 e 0,1 g/mL. Há boas perspectivas de que ambas as substâncias possam constituir auxiliares no controle do Aedes aegypti. Paralelamente aos efeitos sobre os parâmetros biológicos mencionados, verificou-se também alterações das bandas esterásicas de larvas L4, submetidas aos tratamentos com cafeína nas concentrações de 100 e 200 µg/mL e com a borra do café a 0,025 g/mL. A análise do padrão de esterases dos indivíduos tratados e controles foi feita através de géis de poliacrilamida a 8%. A cafeína alterou o padrão de cinco bandas, sendo quatro carboxilesterases e uma acetilcolinesterase. A cafeína e a borra do café tiveram efeitos opostos em relação ao grau de atividade de cada banda esterásica. A alteração, pela cafeína, em Ae. aegypti, da atividade de bandas correspondentes a carboxilesterases e acetilcolinesterases, que normalmente desempenham papéis fisiológicos importantes nos insetos, pode ser uma das causas dos problemas ocasionados por essa substância, nos parâmetros biológicos analisados.
Órgãos financiadores: CAPES e FAPESP.
Palavras-chaves: Aedes aegypti, cafeína, borra do café, desenvolvimento, mortalidade, longevidade.




Hermione Bicudo e Alessandra Theodoro Laranja


A mídia falada, escrita e televisionada de muitas regiões, de norte ao sul do Brasil, tem divulgado a indicação do uso da borra do café (isto é, do pó de café usado), no controle do Aedes. Essa aplicação resultou de pesquisas realizadas no Curso de Pós-Graduação em Genética do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, UNESP, desta Cidade, pelas signatárias deste artigo.

Contudo, a maioria dessas divulgações tem falhado em um aspecto fundamental, que é explicar adequadamente, à população, a forma de uso da borra para esse fim. Esse é o objetivo do presente artigo.

A borra do café pode ser usada nos criadouros domésticos de Aedes, que são, principalmente, vasos de plantas e bromélias, sem o risco de matá-las, pois inclusive, é usada, por algumas pessoas, como adubo. A borra pode ser espalhada sobre a terra do vaso, porque, mesmo uma fina película de água que se forme sobre essa terra serve de criadouro do mosquito. A borra pode, ainda, ser colocada dentro do "copo" que se forma no interior das bromélias, onde se acumula a água. E também pode ser colocada nos pratos dos vasos (lembremos, porém, que sempre que possível, esses pratos devem ser eliminados).

A quantidade de borra a ser usada depende da quantidade de água que se acumula nesses locais. Por exemplo, se o prato do vaso ou a bromélia acumula mais ou menos um copo de água da rega ou da chuva, quatro colheres de sopa da borra são suficientes. Espalhe a borra no prato ou coloque no interior da bromélia ,com a colher; quando a água escorrer, vai diluir a borra. Aumente ou diminua a quantidade em função da variação da água acumulada. A borra do café, como tem sido divulgado, impede que o Aedes atinja a fase adulta. O mosquito, no seu desenvolvimento, passa pelas fases de ovo, larva, pupa e adulto. A borra é ingerida pela larva que se a intoxica, morrendo nessa fase. Se o mosquito não atingir a fase adulta, que é a fase em que ele pica as pessoas transmitindo os virus, não haverá doenças. Assim, a borra do café funciona como uma forma alternativa para o inseticida abate, granulado organofosforado, usado no controle das larvas, que é tóxico para o homem, os animais domésticos e o ambiente. Por causa dessa toxicidade e porque os inseticidas induzem os insetos à resistência, de modo que o inseticida perde a capacidade de matá-los, no mundo inteiro, hoje se buscam formas alternativas de controle que substituam os inseticidas. Porisso, o uso da borra do café é um achado importante.

Trata-se do aproveitamento de um material cujo destino é o lixo, que é disponível na maioria dos lares brasileiros e não tem contra-indicações de uso, pois seu extrato é ingerido pelo homem. Para o Aedes tem havido indicação de outros produtos, como o sal de cozinha e a água sanitária, mas estes produtos não podem ser usados nas plantas e sim em outros criadouros.

É evidente que os inseticidas continuarão a ter que ser usados para eliminar os mosquitos adultos se estes forem produzidos. Porque não basta eliminarmos os Aedes em nossas casas, se os terrenos baldios não forem limpos, mesmo de tampas de latas ou vidros ou pedaços de plástico que se encurvam fazendo pequenos reservatórios para água da chuva. Para que o Aedes se reproduza, basta que a água esteja parada, seja limpa ou suja. Não podemos esquecer ainda que os ovos resistem ao dessecamento por até um ano. Assim, temos que estar atentos. Se nossas vidas estão em jogo, vale empregarrmos todos os recursos, do bom senso à borra do café.

Dra. Hermione Bicudo- Pesquisadora do IBILCE e Coordenadroa do Laboratório de Vetores
E-mail: bicudo@ibilce.unesp.br

Alessandra Theodoro Laranja - Aluna do Curso de Pós-Graduação em Genética do IBILCE, nível doutorado
E-mail: alessa20@hotmail.com





Trabalhos anteriores, do grupo de pesquisas do mesmo laboratório, utilizando cafeína e Aedes, publicados em revistas especializadas:

  1. Itoyama, M. M. 1989 .Efeito da cafeína sobre aspectos reprodutivos e do desenvolvimento, em Drosophila prosaltans. Dissertação de Mestrado, IBILCE-UNESP (sob orientação da Profa. Dra. Hermione E. M. de Campos Bicudo).
  2. Itoyama, M. M. 1992 .Efeito da cafeína sobre aspectos reprodutivos e em associação com o íon estanoso, sobre a produtividade em Drosophila prosaltans. Tese de Doutorado, IBILCE-UNESP (sob orientação da Profa. Dra. Hermione E. M. de Campos Bicudo).
  3. Itoyama, M. M. & Bicudo, H.E.M.C. 1992. Effects of caffeine on fecundity, egg laying capacity, development time and longevity in Drosophila prosaltans. Revista Brasileira de Genética (Brasil) 15: 303-315.
  4. Itoyama, M. M., Bicudo, H.E.M.C. & Manzato, A. J., 1995. Effects of caffeine on mating frequency and pre-copulation and copulation durations in Drosophila prosaltans. Cytobios (Cambridge, England) 83: 245-248.
  5. Itoyama, M. M., Bicudo, H.E.M.C. & Cordeiro, J. A., 1997. Effects of caffeine on mitotic index in Drosophila prosaltans. Brazilian Journal of Genetics (Brasil): 20: 655-657.
  6. Itoyama, M. M., Bicudo, H.E.M.C. & Manzato, A. J., 1998. The development of resistance to caffeine in Drosophila prosaltans : productivity and longevity after tem generations of treatment. Cytobios (Cambridge, England) 96: 81-93.
  7. Itoyama, M. M., Bicudo, H.E.M.C. & Manzato, A. J., 2.000. Effect of the stannous chloride combined with caffeine on productivity of Drosophila prosaltans. Genetics and Molecular Biology(Brasil) 23: 105-107.
  8. Lima-Catelani, A. R. A. e Bicudo, H.E.M. de C. 1992. Aedes: O problema é de todos nós. Diário da Região (São José do Rio Preto, SP), dia 23/02, p.4.
  9. Lima-Catelani, A.. R .A. e Bicudo, H. E. M. de C. 1994. Chromosome studies in two Brazilian populations of Aedes aegypti. Cytobios (Cambridge, Inglaterra) 79: 241-251.
  10. Lima-Catelani, A. R. A. e Bicudo, H. E. M. de C. 1995. Cytogenetics of Aedes fluviatilis. Cytobios (Cambridge, Inglaterra) 81: 189-194.
  11. Lima-Catelani, A.. R.A. e Bicudo, H.E.M. de C. 1995..Aedes: alguns aspectos de sua biologia, comportamento e papel na transmissão de doenças ao homem. Revista Regional de Ciências (Faculdade de Medicina, São José do Rio Preto) 4: 45-54.
  12. Sousa, R. de C. and Bicudo, H. E. M. de C. 1998. X chromosome heterochromatic pattern and nucleolar synthesis in pupal ovaries of Aedes aegypti. Cytobios (Cambridge, Inglaterra) 93: 185-193.
  13. Sousa, R. de C. and Bicudo, H. E. M. de C. 1999. Heterochromatic banding pattern in two Brazilian populations of Aedes aegypti. Genetica (The Netherland, Holanda) 105: 93-99.
  14. Sousa, R. de C. e Bicudo, H.E.M. de C. 2.000. Morphometric changes associated with sex and development in the Malpighian tubules of Aedes aegytpi. Cytobios (Cambridge, Inglaterra) 102: 173-186.
  15. Bicudo, H. E. M. C. 2001.Aedes aegypti. Diário da Região (São José do Rio Preto), 13 de abril, p 3.
  16. Bicudo, H. E. M. C. 2001. Aedes no IBILCE. Diário da Região (São José do Rio Preto), 16 de maio, p 3.
  17. Bicudo, H. E. M. C e Laranja A.Th.. 2001 Controle do Aedes. Diário da Região (São José do Rio Preto), 6 de dezembro, p 3.